Artigo escrito por nosso fiel seguidor e amigo, Vandilson Rosa Matos.
Uma homenagem ao notável jornalista e escritor brotense Rosalvo do Espírito Santo Júnior.
O Enigma de Brotas: Do Lado Inglês ao Coração da Chapada Diamantina.
Brasília-DF, 29 de Março de 2026.
Dizem as vozes das estradas vizinhas, em tom de estranheza ou de mera descontração: “vai ser besta em Brotas”. A frase, que atravessa gerações como um vento persistente, pode até carregar hoje um sentido meio amargo, não condicente com doçura do solo que a gerou.
Mas, como houvera dizer Thierry Burghgrave, brotense de corpo, alma e coração, para entender o peso de uma palavra, é preciso escavar as camadas do tempo, tal qual um garimpeiro em busca de um veio de ouro sob o abundante quartzo, nas entranhas dos montes, vales e colinas.
Um Ilustre Visitante
Diz a lenda que no final do século XIX, quando Brotas de Macaúbas pulsava como o farol intelectual da Chapada Diamantina, a cidade teria recebido a visita de Sir Wickham De la Beche, um brilhante geólogo e paleontólogo Inglês, formado pela universidade de Oxford.
Wickham não encontrou em solos brotenses apenas as riquezas minerais ou os grafismos rupestres da Pintada. Embora tenha se deslumbrado com o magnetismo do manganês, a pureza do quartzo e a promessa oculta de diamante sobre o abundante kimberlito da Fazenda Alagadiço, tesouros mais valiosos ali o aguardavam.
Não foi somente o trabalho duro da pesquisa. Ele se encantou como os dobrados e madrigais impecavelmente executados pelas Filarmônicas Sete de Setembro, sob a batuta do mestre Artur Campos e da arquirrival Independência, do Mestre Coquí, nos rotineiros ensaios públicos, nas apresentações oficiais, nas alvoradas e nas festas religiosas.
Dúvidas também não há que o honroso visitante, já engajado à juventude, apesar de seu falar português incipiente, nas horas vagas de estudos deleitava-se nas Serestas de Paulo de Ladú, de Maninho de Henrique, dos Tios Nivaldo e Vena e dos primos Nivaldinho e Delsuc, com seus saxofones tenores, auto e soprano, nos festejos de casamentos e batizados. Era também frequente nas Cantorias e nas Novenas da Festa do Divino Espírito Santo. Apreciava, com moderação a Pinga de Lelé, nos concorridos Bailes de Carnaval do “Alabê”.
Deleitava-se, também, com os relatos astrológicos, astronômicos e ecológicos de Doca Ferreira, com o Serviço de radiodifusão “Constelação”, sob a locução inesquecível do brotense Zé Rosa, oriundo da Rádio Globo do Rio de Janeiro. Apreciava também, o curioso visitante, os experimentos e invenções criativas de Chico Elétrico, o som da sanfona pé-de-bode de Zé Louro, das palestras de Dr. Antônio Barbosa, das animadas peripécias do Desembargador Clésio Rosa e dos Saraus proclamados pela eloquência sem igual de Pedrão, Tio de Zequinha Barreto, ao recitar efusivamente, como ninguém jamais recitou, poemas tais quais “Navios Negreiros” e “O Livro e América”, do Poeta baiano Castro Alves, dentre outros.
A Prova de Fogo.
Mas, como nem tudo são flores, a terra que viera estudar quase o teria tomado de volta para dentro de si. Após uma exaustiva imersão de pesquisas no subsolo dos garimpos do Buriti Cristalino, sob sol forte e umidade inclemente das galerias ocultas, profundas, escuras e complexas do Garimpo do “Cafundó”, Sir Wickham acabou por ser acometido por uma febre devastadora.
Debilitado e delirante, hospedado na Pensão da Sra. Preta Moura, ao lado da Igreja Matriz, o geólogo sentiu o frio da morte se aproximar, em terras distantes, muito longe das Colinas Escarpadas da sua aprazível Lyme Regis, uma cidade ativa e charmosa no Condado de Dorset, ao Sul Reino Unido.
Foi então que o destino teria colocado em seu caminho o legendário “Seu Nino”, José Campos, marido de Dona Zirú e pai da professora Lourdes Leite, um "Santo Homem" e exímio farmacêutico. Prontamente requisitado os seus bons préstimos pela diligente Pensionista, diante do leito do Pesquisador, Seu Nino traduzia pura ciência e esperança.
Com uma habilidade alquímica na manipulação de fórmulas e ervas, Seu Nino quase velou o ilustre Estrangeiro, mas, felizmente, após cuidadosamente medicado, quando a febre finalmente cedeu e Sir Wickham De la Beche, ainda pálido, tentou retribuir com abundantes Libras Esterlinas o serviço que lhe salvara a vida, o bondoso senhor apenas sorriu com aquele sorriso tímido e discreto que lhe era peculiar e recusou, sem hesitar, o pagamento. A cura, para Seu Nino, não era, nem nunca haveria de ser, mercadoria.
Aquele gesto de desprendimento e caridade cristã comoveu o inglês mais do que qualquer tese acadêmica aprendida em Oxford. Certamente ele não experimentara tamanha afeição e nobreza de alma em sua vivência no Além-Mar.
A Lição do Sertão
Ao partir para dar sequência suas pesquisas em cidades da redondeza, como Gentio do Ouro, Vila dos Remédios (Ibitiara), Bom Jardim, (Ibotirama), Oliveira dos Brejinhos, Morpará, Barra do Mendes e Fundão (hoje Ipupiara), Sir Wickham já não era o mesmo técnico calado e frio que desembarcara na Bahia:
Propalava, aos quatro cantos, sem tradutores, em um misto de inglês clássico e português, as gratas experiências que vivera em Brotas, enaltecendo-a, de todas as formas e confessando, em seu linguajar peculiar, naquelas cidades circo-vizinhas que em Brotas ele se tornou um melhor (the best) ser humano.
Mais tarde, em suas palestras nas capitais do Velho Mundo, quando indagado sobre a origem de sua sensibilidade humanística e de sua sabedoria transbordante, ele invariavelmente repetia com brilho nos olhos:
“A minha técnica herdei de Oxford, mas minha alma tornou-se nobre e humana sob o sol de Brotas. Eu me fiz o melhor de mim naquela terra abençoada” ("I inherited my technique from Oxford, but my soul became noble and human under the sun of Brotas. I became 'the best' version of myself in that blessed land.")
Anos após sua morte, o prestigiado Journal of the Geological and Palaeontology Society teria publicado um tributo póstumo ao cientista. O título sintético da matéria, em letras garrafais, celebrava sua trajetória: "The Best in Brotas" (O Melhor em Brotas).
As “Traças” e a Tradução
Um exemplar dessa revista teria atravessado o oceano pelas Mãos de Tereza, e encontrou repouso na lendária Biblioteca do Sr. Osório Rosa – marido da Professora Maria Barreto, pai de Benjamim e de Didi –, um santuário da cultura e do saber que chegava a rivalizar com as melhores bibliotecas particulares do Estado da Bahia. Era situada na Praça Dr. João Borges, perto da casa de Dr. Walter Bastos de Mattos, da Feira e do Mercado Municipal, onde há pouco funcionava uma pastelaria.
Contudo, o tempo é um senhor implacável. Com a partida do bibliotecário, somada ao notório o gradativo abandono da cultura e das melhores tradições brotenses pelo Poder Público local ao longo das sucessivas administrações, o descaso e a falta de compromisso permitiram que “as traças” devorassem, ao longo dos anos, não somente as folhas amareladas e envelhecidas dos jornais, das revistas dos livros, das gramáticas e enciclopédias que ali repousavam, mas, e em grande parte, o próprio brio, fervor e pujança da Brotas Amada de outrora.
Com a notícia do jornal inglês, mais uma vez o povo simples de Brotas e das redondezas, ao ouvir o eco daquela glória estrangeira, transmitida pela tradução oral, transformou-se o The “Best" (O Melhor) do idioma germânico-ocidental no fonema mais próximo da língua portuguesa.
O que era um título de excelência - o reconhecimento de que Brotas como o lugar da região onde o ser humano atingia seu ápice de cultura e polidez -, caiu no senso comum, as vezes não e muitas vezes sim, como gracejo e até menosprezo, por aqueles que até então não haviam alcançado a profundidade do enigmático termo, tal qual ora se faz revelado.
O Verdadeiro Sentido
Quando hoje ouvimos a frase associada ao “the best” de Sir Wickham De la Beche é preciso que o brotense, sem julgamentos, sorria com a serenidade quem conhece o legado de sua própria terra: o superlativo de alma de Brotas, a clareza de quem decifra o mundo a partir de seu próprio lugar, como bem o fez o honrado professor brotense Milton Santos em sua extensa biografia; a nobreza de quem coloca a humanidade acima do lucro, tal qual Seu Nino e muitos outros e outros que, ao longo do tempo, edificaram a nossa velha história.
Neste contexto, ir pela primeira vez ou voltar a Brotas ainda continua sendo, em verdade e sem sombra de dúvidas, um dos convites mais nobres que se pode receber: o de buscar a própria luz, a inspiração para tornar-se uma pessoa cada vez melhor, mais pacífica, tranquila, e, talvez, ainda um pouco mais culta, mas, acima de tudo, o convite para ser uma pessoa profundamente humana, caridosa, hospitaleira, assim como deve ser, a cada dia e cada vez mais e melhor, todo bom brotense, de alma, de corpo e de coração, para que a Brotas de hoje volte a ter, novamente, as melhores referências e lembranças da Brotas de outrora!
LSNSJC/PSSL/VRM/2026.3.
Artigo escrito por Vandilson Rosa Matos
Foto ilustração restaurada com IA
Da Redação, 30/03/2026

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