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sexta-feira, 11 de março de 2016

BROTAS NA HISTÓRIA: 100 ANOS DO BARULHO DO PEGA


100 ANOS DO BARULHO DO PEGA



MANDIOCAS X MOSQUITOS NA GUERRA DO PEGA

Resumo Extraído do Livro Ensaio Histórico do Município de
 Brotas de Macaúbas- Bahia, de Wanderley Rosa Matos, em Memória da Passagem dos 100 anos do Barulho do Pega, Como a Guerra ficou conhecida.
Brotas,11 de março de 2016.


Inicialmente gostaria de manifestar solidariedade a todas as famílias que perderam parente, amigos e conterrâneos nesta guerra de coronéis.
Manifestar solidariedade Vila Brotas, dos distritos de Fundão e Barra do Mendes, bem como a comunidade de Pega que a 100 anos viveram os Horrores desta Guerra. Gostaria ainda de dizer que a única coisa que aproveitar de uma Guerra é a decisão de nunca mais permitir a ocorrência de seus horrores, fortalecendo sempre a cultura da Paz.



Antecedentes
Em 1882 a Vila de Brotas de Macaúbas ganhara destaque na Chapada Diamantina, como um dos mais prósperos municípios da região, com uma população de 28.420 habitantes, sendo 14.251 homens e 14.169 mulheres, (Censo de 1890), tinha um imenso território, com mais de 7.000 km², que se estendia da margem direita do Rio São Francisco em Morpará, até as Lavras Diamantina, de onde era grande a garimpagem de ouro e diamantes, além de apresentar uma formidável lavoura de mandioca, fumo, milho e algodão e também grande criatório de gado, que abastecia em grande parte toda a Zona garimpeira.
         Na Região serrana, o garimpo de diamantes, fez surgir o Distrito de Chapada Velha, fortaleza da família Matos, onde o Coronel Clementino de Matos era o líder maior e, logo ali a poucas Léguas, o Distrito de Barra do Mendes, território de domínio do poderoso Coronel Militão Rodrigues Coelho. Ocorre que estas duas comunidades sempre entraram em conflitos, os dois coronéis não se suportavam e, de vez em quando, a Chapada Velha era invadida pelos Mosquitos, da mesma forma Barra do Mendes era invadida pelos Mandiocas. Nestas investidas acontecia de tudo, assassinatos, saques, roubos, incêndios, insultos, tiroteios.
Do outro lado, em Barra do Mendes, o Coronel Militão Rodrigues Coelho acompanha atentamente os acontecimentos, e logo escreve uma carta a Horácio, indagando qual a sua atitude dali por diante. Ao que Horácio de Matos, resolveu ir pessoalmente a Barra do Mendes a fim de promover o entendimento de aproximação das duas comunidades, um novo período de Paz e entendimentos amistosos entre as duas populações.
Dali em diante eram comuns os seus encontros para resolverem amistosamente as divergências políticas, sem o menor atrito. (CHAGAS, 1961. P.21)

A primeira tentativa de Invasão de Brotas
Em 1913, o chefe de Barra do Mendes, um numeroso grupo de homens e marchou para Brotas, na estrada recebeu uma delegação de brotenses, que tentavam mediar a invasão, mas não atendeu ao apelo de suspender a invasão, alegando que o motivo da sua marcha era a cobrança de impostos exorbitantes, no seu distrito. (CHAGAS, 1961. P.21 e 22).
Naqueles dias Horácio de Matos estava em Brotas, onde mantinha boa relação de amizade, tinha um irmão Ezequiel de Matos, duas filhas, Neusa e Noêmia, era amigo do Padre Carrilho.
E foi Horácio entender-se com o coronel e conseguiu dele, não só fazer voltar as suas tropas, como também a promessa de mandar pagar os impostos atrasados do distrito de Barra do Mendes, com 50%de de abatimento. (CHAGAS, 1961. P.22).
Não era essa a primeira, nem seria a última investida do Coronel Militão contra Brotas, outras tentativas já haviam sido feitas, porém todas elas foram rebatidas por Clementino de Matos, que de prontidão atendia aos chamados dos brotense.
A Segunda Tentativa de invasão de Brotas
Novamente em 1914, um ano depois da primeira tentativa, Militão marchou outra vez, de surpresa, com duzentos e tantos jagunços, sob a cidade de Brotas, e  o povo brotense, novamente apelou para Horácio de Matos, entregando-lhe as chaves de suas casas comerciais e retiraram-se da vila.
Desta vez não pode Horácio deter o avanço do chefe da Barra, nem impedir a sua entrada na sede do município, mais conseguiu harmonizar as coisas até a chegada do delegado regional enviado pelo governador para fiscalizar a situação de Brotas.
Militão ganhou pela astúcia o que não conseguira nas urnas, dando aos seus jagunços o aspecto de cidadãos respeitáveis. Assim, foi o delegado regional ludibriado na chegada pelos jagunços que esconderam as armas e se apresentaram bem trajados, enquanto o povo de Brotas se achava no mato, foragido.
Ao chegar aquela cidade, o delegado Otaviano Saback não teve quase com quem se entender, sou tinha em Brotas a turma de Militão. E o delegado regional, não estiou em lhe deu todos os cargos do Município. (CHAGAS, 1961. P. 22 e 23).

Militão Intendente
No dia 08 de Março de 1916 o Cel. Militão Rodrigues Coelho, é nomeado Intendente Municipal de Brotas de Macaúbas, pelo Governador do Estado José Joaquim Seabra.
A presença de Militão na intendência como uma espinha de peixe atravessada na garganta de ponderável parcela de brotenses tradicionais, que não o suportam nem o tragam.
Nestas circunstancias, a tensão política local, permanece ao longo de um ano e tanto.
Para os adversários de Militão, não há no seu reinado, nem justiça, nem pão nem água. É uma política de humilhações e de afrontas. Uma política de perseguições tamanha que, inúmeras famílias, dentre as quais as de Roberto dos Santos Rosa, Félix dos Santos Rosa, Pedro Bastos e José Gomes da Cunha resolveram deixar o município, indo morar em Barra do Rio Grande. (MORAES, 1987. P.72)
A insatisfação vivida pela família brotense com a violência que tomou conta do município ficou registrada em uma carta aberta ao governador, escrita pelo Oficial do Cartório dos Feitos Cíveis e Criminais - Joviniano dos Santos Rosa (Major Vena), publicada no jornal Diário de Notícias.

 Carta Aberta ao Governador (Resumo)
Carta Aberta ao Governador do Estado da Bahia
Em Brotas de Macaúbas têm-se dado acontecimentos anormais, como, por certo, V. Exa. não ignora. E creio que já teria tomado providências se elas não proviessem dos mesmos autores.
Se V. Exa. lhe conhecesse o temperamento e os instintos, não o investiria de um cargo de tanta responsabilidade, para o qual se faz mister um homem sério, digno e capaz de o saber honrar
No dia 1º de abril de 1915, o Coronel Militão com um grupo de jagunços impediu o Capitão Pedro Pereira Bastos de assumisse o cargo de Coletor Estadual.
No dia 20 de maio, Militão mandou à Brotas e outros povoados um grupo de jagunços, com ordem expressa de fazer sair dali os homens de bem, espancando e roubando outros.
No dia 8 de setembro, Militão ordenou Antônio Lucas, que me assassinasse. Como Lucas não cumprisse, por não poder, foi também expulso de Fundão, onde residia.
Na noite de 3 para 4 de janeiro de 1916, houve, por determinação do mesmo Chefe, uma singularíssima serenata na Vila de Brotas, em que as notas mais suaves foram cerca de cinquenta tiros de comblain e rifles, secundados pelos de pistolas, em não menos quantidade.
Talvez V. Exa. não faça a mínima ideia do pânico que se apoderou de todas as famílias de Brotas de Macaúbas, sob os insultos, os gritos e as descargas desse grupo
No dia seguinte, 4 de janeiro, o chefe Militão, com o poder absoluto de que dispõe, mandou sair da Vila todos os músicos que se recusaram a tocar na sua posse de Intendente, sob pena de espancamento ou morte.
No dia 17, às 23 horas, fui avisado de que o chefe já estava no Fundão, com os seus jagunços, para me assassinar. Em vista do risco retirei-me da Vila. Passada uma hora e a minha casa era cercada por cinquenta jagunços.
Na noite de 18 para 19, o mesmo grupo, cercou a casa do meu genro Brás, julgando-me ali refugiado.
Nessa mesma noite, foram a Corrente, onde prendeu e roubou o cidadão Altino Cisóstomo de Lima e, pois em liberdade dois criminosos de morte: Antônio Durães e Elias Novais.
Novamente foram me prender e, mais uma vez não me encontraram, ai roubaram minhas ovelhas e ameaçaram minha senhora, que pedir providências ao Cap. Ezequiel de Matos, no que foi atendida.
Invadiram as fazendas do Major Romualdo Rosa, de D. Tomásia Maria de Conceição, de José Brás e outros, roubando e implantando o terror.
Talvez está carta me custe a vida, por me não deixar ser perseguido. Mas, resta-me a consolação de ter dito a verdade, e V.Exa. poderá, desde já, responsabilizar o autor da minha morte, caso ela se dê, porque por esta lhe tornei sobejamente conhecido.
Sou de V. Exa., humilde servidor, (a) Joviniano dos Santos Rosa – Escrivão efetivo dos Feitos Cíveis e Criminais”.

Resposta a Carta Aberta
A resposta à carta-aberta veio logo em seguida, no dia 11 de Marco de 1916, brutal e violenta, bem ao modo do Coronel Militão, com o escrivão sendo preso e recolhido a cadeia pública.
Quando Joviniano conversava com amigos na praça principal os policiais o cercam e anunciam:
- O senhor t’eje preso!
O cidadão reage com veemência:
- Me respeitem. Sou um homem de Bem que nunca roubou nem desonrou ninguém. Além disto – e saca do bolso um habeas corpos preventivo.
- Não adianta protestá nem runiná, seu Major. Habeas Corpus p’ra nóis é merda! T’eje preso! ...
E o levam, sob aparate bélico, rua a fora, ante os olhos de quantos se acham presentes estarrecidos. (MORAES, 1997. P.72)
Revoltados com a tal atitude, o Padre Carrilho, parentes e amigos de Joviniano, recorrem ao jovem conterrâneo e amigo, Horácio de Matos, que de prontidão reuniu um grupo de amigos e seguiu para Brotas, pernoitando na fazenda Bela Vista, de Dona Isabel Gomes Ribeiros, onde encontra um grupo de brotense que ali se refugiaram.
Conta Américo Chagas:
Mandou então Horácio avisar a Militão que que iria a Brotas, com um grupo de amigos, para solucionar pacificamente a situação.
Era manhã de 12 de Março quando ao chegar em Brotas, Horácio acompanhado de 6 cavalheiros, escutam um disparo vindo da Cadeia Pública e apressam os passos, quando são recebidos a bala, fizeram trincheira dos próprios animais e sustentar o fogo.
Depois de uma hora de cerrado tiroteio, conseguiu Horácio, com a ajuda de amigos da Vila de Brotas, e de seu irmão Ezequiel, que ali morava, derrotar o inimigo.

Preparando a Reação
 
Os brotenses deslocam se para o Pega, a 18 km de Brotas, e no caminho de Fundão, colocaram 20 jagunços, bem armados e entrincheirados em fossas abertas no chão.

O Barulho do Pega
Era dia 15 de Março de 1916, quando Militão com experimentados cabos de guerra e uma força de mais de 300 homens, muita arma e munição ao chegar ao Pega foram atacados de surpresa e, reagem por tosos os flancos, não conheciam a posição de Horácio, mais conheciam o lugar e logo conquistaram a aguada, ficando então em posição de defesa.
         O tiroteio era intenso, e ensurdecedor. Horácio avançava e recuava, para depois atacar de cima quase a queima roupa. De Brotas, principalmente a noite, a população parava para ouvir o Barulhão, o Barulhão do Pega.
A princípio, Brotas tremia de medo, quando soube da quantidade de jagunços sob as ordens de Militão. No entanto, depois do primeiro dia sem que Horácio recuasse um passo, foi-se animando.
O fogo aumentava, os fuzis matraqueavam dia e noite. Pela manhã um nevoeiro cobria o mato, era fumaça de pólvora. Passou o segundo dia.
No dia 17 de Marco, terceiro dia, Militão pede reforço a Barra. As notícias por lá já não eram encorajadoras.
... Horácio estava no comando de sua gente, que se lutava, não era por outro motivo, senão pela sua liberdade, e lutava com brio e disciplina, Horácio dava gritos agudos, descarregava a pistola Mauser “Caixa de Pau” e atacava na ofensiva e contra ofensiva.
Militão tinha comunicado ao governador sua atitude e, esperava a qualquer momento o socorro.
Zeca Sodré, o guardião da aguada, fora atacado de reumatismo, por ficar dias e noites atirando em uma só posição, de joelhos. Por mais de uma vez chamara Militão para mudar de tática e saírem ao campo para atacar Horácio de frente. Militão teimava em esperar a força policial.
No sétimo dia, o desanimo penetrou nas fileiras de Militão, pois esta era uma luta sem tréguas e sem descanso; as refeições feitas, no bornal, água bebida de rastros. Ninguém dormia, mesmo que tivesse descanso, corria o risco de morrer dormindo. E nada de uma atitude determinada de Militão.
Os brotenses se substituíam facilmente; e como eram os atacantes lutavam folgados.
Em Brotas, a cada dia, ia ficando mais distante o “barulhão da pega”, as notícias eram animadoras e davam conta da bravura de Horácio, que pessoalmente comandava os ataques.
Chega Isidoro de Matos, irmão de Horácio, com mais 80 homens, e quando cai a noite, num dos seus impulsos de afoiteza, com dois companheiros, invadiu e arrebentou a porta do forte a coice de fuzil, estabelecendo o pânico entre os inimigos que fugiram pelos fundos.
No dia 23 de março, nono dia, Militão correu.
Correu. Não fez uma retirada heroica. Fugiu do campo de luta sem dizer por quê. Caiu no ridículo. E Horácio não a perseguiu.
Brotas readquiriu sua emancipação política, Vena restabeleceu-se, embora ficasse defeituoso.
Depois disto tudo Militão voltou para a Barra do Mendes e ali se entregou a levantar fortificações, reforçar as cercas de quiabento, escavar passagens subterrâneas, valados, trincheiras e outros abrigos de guerra.
O Coronel Militão Rodrigues Coelho, conseguiu com o governador Antônio Muniz de Aragão, desmembrar do município de Brotas os distritos de Barra e de Fundão para formar um novo município, e, como lhe parecesse pequeno demais, entendeu de aumenta-lo a custa do vizinho município de Gameleira do Assustará, exigindo do chefe Renovato Alves Barreto, a anexação do distrito de Guigós ao recém formado município de Barra do Mendes.
Militão se achava muito forte e prestigiado, podendo abrir mão da aliança do chefe de Gameleira, que resistiu em Velames e pediu auxílio de Horácio de Matos. Este lhe enviou 50 homens armados e mandou defender o Gentio do Ouro.
Ao mesmo tempo, o Militão mandava o Antônio Durães com um bando de jagunços ocupar a fazenda Melancias, de um rico tio de Horácio- Manuel Pereira de Matos, o Né. Este sendo expulso a bala, foi com a família para Chapada Velha, os mosquitos então levaram para barra do Mendes umas trezentas cabeças de gado do Né. (OLIVEIRA. 1991. P. 74).
Era o Início da Batalha de Barra do Mendes

BROTAS NA HISTÓRIA: 100 ANOS DO BARULHO DO PEGA
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