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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

CRÔNICA: A PADARIA DE TEVA - POR GELSON VIEIRA

Crônica - A Padaria de Teva

Por: Gelson Vieira.


A padaria é aberta pontualmente às seis da manhã. Os vizinhos da esquerda e da direita do ambiente industrial e comercial instituíram aquele momento como a alvorada teviana. Alguns permaneciam sob os lençóis, enquanto outros pulavam do leito e logo se dedicavam aos afazeres cotidianos, um despertar geral! A causadora do incômodo era a porta que com o tempo foi se afastando do portal e assumindo outra posição. Deixando ao largo o nível a que foi submetida pelo falecido marceneiro Peroba.

A porta ao ser 
movimentada criava atrito entre ela e o piso, que era feito de ladrilho de barro. Assim, o som produzido era estridente, agudo e intenso. Verdadeiro relógio despertador, ou incomodador? Desse modo, a partir do domingo que era feira semanal, ao sábado dia de missa, por anos a fio se escutava regularmente o som da porta da padaria, sendo aberta anunciando mais um dia que Deus dá. Era Teva, o proprietário da padaria, que depois de ter amassado, moldado, levado os pães ao forno, os retiravam e depositava os pães de cada manhã em grandes balaios. Os cestos utilizados por Teva eram de material natural, buritirama.

Feitos pelas mãos laboriosas de Chiquinha Jeitosa. Os pães de cores amarronzadas, dispostos nos cestos, combinavam com a estética dos balaios e, até aumentava o desejo de consumo dos clientes. O ritual na única e necessária padaria do povoado de Pedra de Amolar, não mudava. Teva regularmente, após os preparativos finais de fabricação dos pães, tirava o suor do rosto, ao usar dois dedos da mão esquerda. Em seguida, vestia uma camisa de algodão cru, juntava casas e botões, olhava de cima para baixo e via se estava todo de acordo, ou seja, cada casa com seu conteúdo, abotoamento correto! Então, devagar, se encaminhava Teva para a porta da frente do estabelecimento, a porta da rua. E, com o jeito de sempre, desaferrolhava uma banda e outra e puxava a porta como de costume. 

Nenhum som Teva escutava. Não que fosse surdo, pelo contrário, escutava até bem de mais. É que ele já estava acostumado, o jeito do cachimbo põe a boca torta. Então, a luz do sol não perdia tempo, logo que as bandas da porta iam sendo escancaradas, os raios entravam rapidamente, percorrendo o ambiente empurrando a escuridão. Depois, se instalava confortavelmente e, com o passar dos instantes ia mudando de lugar lentamente. Prá que pressa! Depois de tantas mudanças, os raios de sol saiam devagar. Lá pelas onze horas da manhã não mais eram presença. Mas, enquanto os raios de sol se ambientavam, Teva não perdia tempo e se punha pelo lado de dentro do balcão. 

Assumia a identidade de vendedor. O balconista da Padaria de Teva com uniforme de pano de algodão. Ao seu lado direito Teva colocou um lápis apontado, uma borracha e um caderno brochura, sem capa. Para novamente inaugurar solicitações de fiado. A palavra crédito não era utilizada na comunidade de Pedra de Amolar. Teva anotava os fiados de alguns clientes que desfrutavam de sua confiança. Desse modo, regularmente a bandeira da comercialização era hasteada. Os trabalhos estavam abertos. Verdadeira celebração do costume de se adquirir e comer a massa milenar. Uma tradição que se renova a cada amanhecer em Pedra de Amolar e, em qualquer lugar do mundo. 

O padeiro Teva era reconhecido pela sociedade pedrense não pelos seus saberes em panificação. Apesar de só fazer dois tipos de pães: de sal e de doce. Teva possuía e ampliava seus conhecimentos em outras áreas, inclusive logística, pois, o pão estava à disposição da população na hora agá e no dia certo. Já pensou, caso Teva trabalhasse no ministério contra as pestes? Todos já estavam imunizados e alegres.

Teva também se preocupava com o abastecimento alimentar da pequena Pedra de Amolar, tanto que escreveu com pincel na cor azul em um papel de embrulho: PÃO QUENTINHO DA HORA – LEVE PARA CASA NO MÁXIMO 8 UNIDADES. E, se alguém quisesse levar mais que o regulamento, o padeiro argumentava:  E os outros vão comer o quê? Não senhor, o que está escrito é para ser obedecido! Não pensa nos outros não? Mas, as reclamações aumentaram e Teva tomou uma decisão prA lá de radical. Fechou a padaria logo no dia seguinte. Sem nenhum aviso prévio. 

Costumeiramente os fregueses se dirigiram à padaria e deram com as portas na cara. Um perguntava para o outro o motivo. Perguntas sem respostas. A Pedra de Amolar está desabastecida de pães. Uma calamidade pública. Á noitinha, Teva recebeu uma comitiva formada pelo vigário, a dona do cartório e o presidente da câmara de vereadores. Foram conversar. Saber os motivos que levaram o fechamento da padaria, importante comércio que há décadas servia a comunidade.

Teva não contou conversa. Foi direto ao assunto e argumentou utilizando palavras que pegou emprestado do Evangelho, e conclui seu sermão:  não foi desse jeito? Cristo com cinco pães e dois peixes alimentou muitas pessoas. Tem gente que quer comprar mais pães que o determinado em minha padaria... É uma soberba não pensar nos outros! Com estas palavras a comitiva concordou com Teva e firmaram que eles enquanto representantes da Igreja, do legislativo e do Judiciário se comprometiam em divulgar o acordo aos "pedrenses". E assim, foi feito e Teva re-abriu a padaria. Foi uma festa, todos comemoraram. Outro fato incomodou Teva. Mas, desta feita a padaria continuou funcionando.

Certo dia, logo cedo, um senhor que não tinha o costume em comprar pães entrou e ficou a observar o movimento de compra e venda. Quando o vai e vem cessou Teva se dirigiu ao desconhecido: 
- E o senhor, O que manda?! O pão agora acabou. Só amanhã cedo. 
Então o visitante se apresentou na condição de agente de desenvolvimento de um banco oficial. O agente de fala mansa e esperta apresentou a linha de financiamento e as vantagens que Teva passava a desfrutar com a modernização da padaria.
Disse o agente: 
- O senhor, pode incrementar as vendas. Pois, como presenciei e constato neste seu estabelecimento só se compra e vende pães que o senhor mesmo faz. 
Teva permanecia calado. E o agente bancário exemplificou: 
- O senhor deve trocar o piso, fazer nova pintura, colocar umas prateleiras e nelas acondicionar manteiga por exemplo. Veja a lógica! Manteiga casa com pão. E, mais! Vamos colocar nestas prateleiras café e leite. Pronto. Casamento perfeito! Pão, manteiga, café e leite. O senhor está com a faca e o queijo na mão! A freguesia vai aumentar e o faturamento será muito mais! Então, vamos ao empréstimo? 
Nisso, Teva de supetão argumenta:
 - Aqui é uma padaria não é manteigaria, nem cafezaria e muito menos leiteria. O muito, que poderia mudar nessa padaria seria o nome do negócio. Colocaria uma placa bem bonita com a palavra em caixa alta:
BELÉM. Mas o bancário retrucou:
- Belém?... Quis conversar, mas engasgou nas palavras, que não tinha.
Teva retoma a palavra e diz: 
- Belém é a casa do pão em hebraico. E a diversidade aqui sou eu! Sou muitos, nessa pessoa que o senhor enxerga, mas não vê. Bom dia!

Foto: Arquivo Familiar
Texto: Gelson Vieira
Da Redação, 28/01/2021


CRÔNICA: A PADARIA DE TEVA - POR GELSON VIEIRA
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